Monday, January 29, 2007

Capítulo 3 - Os Imperadores

Com o sangue ainda escorrendo pela faca, manchando sua mão, ele pensava: “Será que este é realmente meu destino?” Um breve clarão passou pela sua mente, dizendo que aquilo era insano, que matar aquelas pessoas, daquela forma, era completamente errado... Mas então ele ouviu novamente aquela voz...


Aquela que sempre guiava seus passos, sussurrando em seu ouvido o próximo movimento. Ela o lembrou de porque estava fazendo aquilo. “O mundo está doente”, ela dizia. “A humanidade se perdeu, e precisa da Renovação para completar um novo ciclo... Começar de novo...”. As palavras ecoaram em sua cabeça, fazendo-o relembrar seus últimos atos, nas duas semanas desde que tinha entrado naquela Igreja. Todos os que tinha matado.


Primeiro foi o Louco. Aquele velho que ficava tagarelando pelas ruas, dizendo ser o guia para o novo mundo... Mas não era ele o guia... Ele era só o primeiro passo, a primeira pedra de dominó a cair, a caminho da renovação. Depois foi o Mago... Iludindo as pessoas, brincando com as suas mentes, brincando com forças que não compreendia. Ele caiu em seguida, completando seu destino. A terceira foi a Sacerdotisa. Aquela jovem moça, líder, forte. Seu sangue era necessário para a mudança... E por isso ela teve que morrer. Ele esperava que um dia todos eles entendessem o porque disso tudo.


Olhou para baixo e viu os dois corpos, ainda quentes. O Imperador e a Imperatriz. Eles eram conhecidos assim por dominar praticamente todo o comércio da cidade, sendo os mais ricos de toda a região. Sua sorte é que eles eram excêntricos e foi fácil seguí-los até chegarem ao parque, buscando um pouco de diversão e aventura longe dos olhos de todos... Inclusive de seus seguranças.


Agora ele observava os corpos nus a seus pés e voltava a enxergar o modo como tudo se encaixava. Todos os eventos interligados, o início do ciclo que finalmente libertaria a humanidade. E ele tinha sido o escolhido para isto. Ele, instruído por aquela Voz e pelo estranho baralho que encontrou, que indicava a ordem de suas mortes através das cartas... E o próximo indicado era o Druida. E ele sabia exatamente onde encontrá-lo... E ainda nesta noite...

Thursday, January 04, 2007

Capítulo 2 - Vozes e Visões

Ele sentou na capela e chorou.

Chorou de cansaço, de angústia, chorou pelo sangue seco q manchava sua roupa e chorou de alegria por saber que sua obra tinha começado e que, através dela, ajudaria a humanidade. Acalmou-se e deitou em um dos bancos, tentando dormir. Foi quando ouviu, novamente o sussurrar de uma mulher.

...Os Imperadores...

Levantou rapidamente, tentando perceber de onde vinha o som e conseguiu perceber um vulto entrando em um dos confessionários da Igreja abandonada que ele tinha adotado como lar. Correu para lá, ansiando por encontrar aquela que havia lhe mostrado o caminho, mas tudo o que encontrou foi a pequena sala vazia. Quando estava quase desistindo, ouviu a voz novamente, agora atrás dele...

... Mate os Imperadores... Chegou a hora, mate os Imperadores...

Por um instante, pensou ver uma mulher de longos cabelos brancos mas, antes que pudesse firmar a vista, ela já havia desaparecido. Percebendo que ela não o deixaria dormir logo, resolveu sair para realizar o passo seguinte de sua obra. Era hora de ir atrás dos Imperadores, conforme as ordens da Voz. Colocou no bolso os instrumentos de sua glória, que havia encontrado dentro do confessionário da capela da primeira vez em que havia estado lá: a adaga e aquelas estranhas cartas, que junto com a Voz, guiavam seu destino.
A porta da Igreja bateu atrás dele quando saiu, ecoando uma longa gargalhada, no escuro da noite. Fez o sinal da cruz e dirigiu-se ao casarão, onde sabia que encontraria os Imperadores.

E então, talvez, ela o deixasse descansar, ao menos um pouco...

Tuesday, January 02, 2007

Capítulo 1 - Loucura, Magia e Uma Mulher.

. Paulo abriu os olhos para encontrar mais uma manhã cinzenta. Toda a semana tinha sido assim, apesar de estarem no meio do verão. “Mau presságio”, pensou ele. Levantou da cama num grande esforço e começou a se preparar para mais uma jornada diária, para mais um dia de rotina, sentado em seu escritório. Tudo estava muito calmo, pelo menos desde a Retomada. Exceto talvez pelos dois homens mortos no final de semana – um velho louco que se dizia o “guia para os novos tempos” e um mágico de fundo de quintal, nada famoso, mas que alguns acreditavam possuir poderes mágicos de verdade. “Ninguém que fará falta”, pensou com um certo sarcasmo. Havia alguns elementos estranhos encontrados em ambas as cenas do crime, como um chapéu de bufão encontrado ao lado do primeiro e uma varinha de condão com o segundo, mas nada que o fizesse perder o sono. Estes crimes talvez dessem um pouco de trabalho para serem resolvidos, mas, com a calmaria, praticamente toda a força policial poderia ser colocada a seu dispor.

Caminhou lentamente por sua casa, sem conseguir se livrar daquele pressentimento que teve ao olhar para o céu, sentindo que algo estava para acontecer. Enquanto tomava seu café, seu celular tocou, fazendo com que quase derrubasse sua xícara – Droga, já começou – disse em voz alta, enquanto procurava o telefone.

- Alô.

- Paulo? Aqui é o Jonas. Temos mais uma morte. Uma moça... Achamos que talvez possa ser o mesmo cara que matou os outros, mas ainda não encontramos nenhuma relação entre eles. Talvez você deva vir até aqui.

- Ok, eu já estou indo. Onde você está?

- No Parque da Liberdade. Te espero aqui. Tchau.

Ao desligar, Paulo maldizia a hora em que reclamou da falta de movimento. “Era só o que me faltava. Um serial killer maluco”. Pegou seu carro e se dirigiu ao local do crime, desejando que o problema se resolvesse logo.

Chegando ao parque, foi ao encontro de Jonas, que tentava manter os jornalistas afastados. Passou pela faixa de segurança e viu a moça morta. Um véu cobria seu rosto, mas sem estar aparentemente preso em nada do seu corpo, indicando que tinha sido colocado depois de morta. Era ruiva, de cabelos longos e ondulados e usava um vestido branco comprido. As roupas estavam inteiras, não aparentando estupro ou qualquer tipo de agressão. Uma poça de sangue se formava no lado direito de seu corpo, onde a mulher havia sido esfaqueada. Paulo se aproximou e disse:

- Seu nome é Amanda. Encontramos algumas amigas suas que disseram que ela devia ter encontrado elas ontem à noite para uma espécie de “ritual”. Elas se dizem bruxas e que esta aí era a “sacerdotisa” do grupo delas. Um bando de freaks, se me permite dizer. O véu realmente não era dela, deve ter sido colocado pelo assassino. A equipe forense já deve estar chegando.

- Ah, droga. Essa semana promete ser longa...

PRÓLOGO

Os dias passavam, trazendo uma agonia intensa. Olhando as pessoas em volta ele imaginava: Como essas pessoas conseguem ser tão felizes? Como podem não perceber a desgraça que o mundo se tornou? Será que a dor ainda não havia tocado suas pobres almas? Será que eles não percebem que um mundo fantasioso foi criado em torno deles, baseado em mentiras e condenações?

Ele simplesmente não conseguia entender. Em sua busca por uma resposta, passou em frente a uma Igreja e decidiu entrar. Ajoelhou-se e rezou, não propriamente a Deus ou a Jesus. Suas preces eram destinadas a forças superiores, que ele ignorava existirem até esse momento. Abriu os olhos e olhou ao redor. O que viu somente aumentou sua dor. Agora enchergava a ganância eclesiástica, com suas Igrejas fenomenais, suas abóbadas e detalhes em ouro e minerais preciosos, materiais conseguidos através da exploração humana, da destruição da natureza, da vontade de serem superiores.

Ele não aguentou permanecer naquele local, porque agora ele havia entendido a razão de sua existência! Sua mente havia finalmente clareado... Sua dor tinha finalmente um significado e a humanidade precisava entender, como ele havia entendido.

Através da dor.

Se era isso que ele precisava fazer para clarear as suas mentes, então que assim seja...